RESTAURANTE CAIS (nem sempre um restaurante é um restaurante)

No mundo ideal, os vinhos viriam com um “modo de usar” esperto, tipo “abre no almoço com seu tio que só gosta de cerveja vagabunda”, “compre caso não saiba se vai cozinhar frango ou boi”, “a beira da piscina é o ambiente ideal”. Mas não, em vez disso, fazem enoastrologia, te contam coisas que não farão a menor diferença na vida, na ocasião, no prazer, é só frase de efeito para concordar. Se um rótulo (ou mesmo um sommelier) te diz “a boca amanteigada é resultado dos 6 meses de barrica e o floral do nariz é aportado pela gewurztraminer” é a mesma coisa que um jovem místico falar “é… libra é mais em cima do muro mesmo, e o ascendente em escorpião é que dá essa coisa sensual em você”. Sabe o que acontece depois disso? Você diz “é verdade”, ou “olha, vou até prestar atenção”. Ou seja, NADA. 

Da mesma forma, a gente costuma usar os lugares segundo a instrução inicial basicona. Alguns, porém, têm mais de uma vocação – e às vezes, a vocação secundária funciona mais do que a da bula. 

No Restaurante Cais, lugar lindo na fronteira de Pinheiros e Vila Madalena, eu voto a favor da segunda via. É um restaurante, claro, o nome evoca diretamente a cozinha focada no mar, mas o que me parece mais vantajoso é usá-lo com um bar de vinhos – até porque a cidade é bastante deficitária na categoria. Um lugar com 6 tipos de Jerez e mais 5 vinhos orgânicos/naturais/biodinâmicos à disposição por copo, todos gostosos (eu disse todos) e com a cara do sommelier, é mais do que a maioria dos ‘bar à vin’ consegue oferecer. 

Da primeira vez que fui, almocei no salão, comi o cardápio quase inteiro, e bebi uma garrafa. Ontem, fui com quatro pessoas, cheguei mais cedo, tomei uma Manzanilla (Romate) e um Riesling (Pfaffman), antes dos amigos chegarem. Depois, veio uma garrafa de Muscadet, quatro entradas, outro vinho (nem me lembro qual), mais duas entradas, uma rodada de Trebbiano On The Rocks (Era Dos Ventos), pão, mais uma taça de riesling, dois cafés e a conta, isso tudo numa “mesa” com quatro banquetas altas, entre a varanda e o salão. Caralho, se isso não é a perfeita dinâmica de uma noite num bar de vinhos…

E, se elogio o esquema de vinhos, é obrigatório dizer que a comida do Cais é excelente e chama a mesa pro lugar em que ela mais cabe: o compartilhamento. Mesmo os pratos principais chegam com cara de que aquilo poderia ser dividido em duas, três, cinco pessoas. O pastel de siri é delicioso (com molho de pimenta que deixa Ivan Marchetti constrangido), o vinagrete de polvo é ótimo e o mini polvo com romesco idem. Que o Adriano (chef e dono junto com o Guilherme) não me odeie, mas é mandatório chegar e perguntar se tem bochecha de peixe – nunca está no cardápio, mas é o que comi de melhor em todas as vezes que fui. Vem salteada na manteiga noisette (uma vez com rabanetes, outra com alcaparras). Chora e chama no país basquinho, neném.

O Cais é mais inteligente do que eu pensava – nem sei se eles pensam que é isso que eu estou falando. No fundo, bares e restaurantes legais são feitos assim, com liberdade para que o frequentador aproveite da maneira que melhor lhe couber. Espero que caiba assim a mais alguém, além de mim.

INSTAGRAM: @restaurantecais

R. Fidalga, 314 – Vila Madalena, São Paulo

Telefone(11) 3819-6282

SÃO CARLOS LANCHES

Desde que comecei a seguir a São Carlos Lanches no Instagram, há pouco mais de uma semana, por indicação da Nina Bastos, não houve um dia sequer em que eu não senti vontade de pedir um x-salada para jantar. As fotos são bonitas e deixam claro: não há como aquilo não ser uma delícia. Lanches prensados, como se fazia em Londrina, na minha adolescência, alface fresca e verdona, tomate em cubos (por favor, problematizem o tomate em rodelas cortadas na enxada, que sai de uma vez na mordida, zoa o lanche e derruba recheio na sua calça), maionese a rodo, batatas bonitas, ingredientes em proporções coerentes uns com os outros, segue lá que você entende (@saocarloslanches)

Pedi ontem. E não pretendo pedir nunca mais. Mas a culpa é minha. O lanche, como previa, é uma delícia, bem feitíssimo, hambúrguer prensado com ponto rosado, grande, a maionese verde é excelente, tá tudo lá. Porém, a São Carlos Lanches fica na Vila Mariana, a 7km aqui de Pinheiros e, como não tem espaço físico e não tenho carro para retirada, o jeito é pedir por delivery. Nos amenos 17 graus que faziam ontem, o lanche obviamente chegou frio, o pão deu uma umedecida e a batata entristeceu. Foi tipo um show do Guns com o Axl gordo – o tempo transcorrido tende a ser grande inimigo da performance.

É provavelmente o melhor lanche prensado que comi em São Paulo, o único feito com esmero, montado e embalado bonitão, comida com gosto de comida, o upgrade daquilo que antecedeu os food trucks feito de maneira muito mais acertada do que os food trucks que vimos na última década tentaram. Mas, pelos salgados R$16 reais cobrados de taxa de delivery (que, quando anunciou a “saída para entrega”, estava na Rua Augusta, o que me faz pensar que meu lanche ainda deu uma rodada boa pela cidade antes de chegar aqui, depois de 40 ou 50min), fui obrigado a chorar baixinho, resignado, e entender que feliz mesmo é quem mora perto da São Carlos Lanches e pode comer aquele x-salada em sua fase plena, como não tive a sorte.

LE FIGADO EXPRESS 01

O que estamos bebendo?

Jean-Claude Lapalu Beaujolais Nouveau (R$196 na @delacroixvinhos )

Beaujolais Nouveau já foi das maiores armadilhas disfarçadas de nome pop e slogan que conhecíamos até uns 10 anos atrás… Os importadores anunciavam “le beaujolais nouveau est arrivée!”, que eu recebia com o mesmo entusiasmo que “seu tio tá convidando todo mundo para ir ao puteiro!”. A cena mudou, ufa.

Recém-chegado na De La Croix Vinhos, é o vinho mais feliz e vivo e sedutor que provei recentemente. 

– “É Grená?”, perguntou a Dani.

– “É Gamay”, retruquei.

Eu achando que ela tentava uma pronúncia vergonhosa para Grenache, quando na verdade ela falava da cor, que, sim, é grená. Um grená turvo e brilhoso. A boca é fresca e saborosa, cheia de energia, ótima para ser o primeiro vinho do dia, o pontapé inicial para começar, ao mesmo tempo, com algo curioso, mas informal – que não vai tomar conta das conversas por mais 8 horas, com seus aromas e notas organolépticas palavrentos. It’s a joy!

O que estamos comendo?

Tarta De Queso Redemolino, da Thaís Gimenez (@thaisgimenez)

Se lhe pedirem dica de cheesecake, tão difícil de encontrar bem feito por aí, cola nesta Tarta De Queso, um cheesecake do País Basco muito vitorioso. Leve, com acidez, açúcar na medida e, como a Thaís, linda.

Eu dei o apelido de “melhor confeiteira indie da cidade” pra Thaís, não foi à toa. E, na minha época, os indies eram mais blasés e inacessíveis. Cumprindo minha premonição, ela se tornou um hit das tortas (de quejio, de maçã, de pêra) e hoje a produção esgota poucas horas depois de postada no Instagram, indiezona do coroio. Vai por mim: reserve com antecedência e seja feliz.

O que estamos vomitando?

Numa visita ao Moma Mia (eu juro), bar do Modern Mamma, tomei o Dry Martini mais errado da década; comi uma burrata maçaricada com presunto cru e rúcula; um carpaccio que parecia comprado no Dia%, uma tagliata com molho feito na usina. Tudo uma bosta, inclusive o serviço desatento. Nota 0 da Kogut.

O que estamos vendo?

Mare Of Easttown

Me venderam Mare Of Easttown (HBO) como, nossa, um tiro de 12 na cara, um desbunde. A Kate Winslet realmente está em plenitude pouco vista, baita personagem, baita atuação. Mas uma série policial em que a única coisa imprevisível é quem é o assassino jamais vai se sustentar por conta de uma atriz excelente. Episódio a episódio, a série só piora e parece ter menos vergonha dos clichês. O final é ruim e, pior, quando termina, fica apenas uma pergunta: “como foi que cheguei até aqui?”. Nota 0 da Kogut.

O que estamos lendo?

Na verdade, relendo.

1. Um texto de 2010, chamado “To Enhance Flavor, Just Add Water”, do Harold McGee para o New York Times. Aula atemporal sobre como a diluição é uma das melhores ferramentas para construção e percepção de aromas e sabores. 

2. A crítica de 2004 do Pitchfork ao disco “Funeral”, estreia do Arcade Fire. O Pitchfork era bom porque, concordando ou discordando, tinha texto lindo e firme. Segue abaixo a tradução da abertura, espantosamente escrita há 17 anos.

https://www.pitchfork.com/reviews/albums/452-funeral/

“A nossa geração é dominada pela frustração, inquietação, pavor e tragédia. O medo é totalmente difundido na sociedade americana, mas mesmo assim conseguimos construir nossas defesas de maneiras sutis – zombamos dos níveis de “ameaça” arbitrários e codificados por cor; recebemos nossas informações de comediantes e rimos dos políticos. Na virada do século 21, conhecemos bem o nosso isolamento. Nossa solidão autoimposta nos torna política e espiritualmente inertes, mas, em vez de tomar medidas para curar nossas feridas emocionais e existenciais, optamos por nos deleitar com elas. Consumimos o martírio afetado de nossos supostos ídolos e o cuspimos de volta em um desafio zombeteiro. Esquecemos que “emo” antes era derivado da emoção e que, em nossa compra e venda de dor pessoal, ou na aproximação cínica dela, não sentimos nada.”

UM INTELECTUAL SENTADO NO CANTO DA SALA

Existem provadores competentes e existem provadores alegóricos. Faço parte do segundo grupo: não busco (nem sou bom em buscar) notas de caramelo e resina, aquela fruta específica que brota no aroma de um vinho, o nib de cupuaçu que se sente no fim de boca. Eu procuro entender as qualidades básicas (acidez, amargor, persistência, álcool, volume, peso, intensidade, etc) e, principalmente, o estilo. Aliás, eu prefiro o estilo ao rigor técnico: gosto mais da oralidade do Emicida, que ignora plurais e concordâncias, mas tem estofo intelectual e linguagem própria, do que do discurso de muito acadêmico – meus dois piores professores de faculdade eram doutores pela Sorbonne; prefiro a caipirinha do Jiquitaia, feita e servida com carinho, do que um drink espalhafatoso, que leva quatro dias para ser produzido, envolve cinco técnicas novas e duas máquinas… estilo e conteúdo, no fim das contas, valem mais do que o checklist de ensino médio.

Além dos dois tipos de degustadores, existe um terceiro: o que é competente e também alegórico. Por isso, combinei com a Laís Aoki, sommelière do Oteque (o melhor restaurante do país), de irmos juntos à nova loja de sakês do Fábio Ota: a Mega Sakê. A ideia era conhecermos o espaço, uma casinha linda nos Jardins, e provarmos as novas bebidas que o Fábio está importando. Com a Laís, além de adorar a companhia e o estilo dela mesma, eu tinha uma degustação mais rigorosa garantida. Conosco, estavam a Nayara Tonani (cozinheira do Oteque), a Michelly Rossi (que, entre tantas qualidades que eu vivo enunciando, ainda tem a paciência de ser minha amiga) e o próprio Fábio Ota, o verdadeiro especialista em sakês da roda (o Fábio é o primeiro e único brasileiro a conquistar o título de Master Sake Sommelier).

A loja ainda não abriu, acho que em até um mês deve começar a atender pessoa física, mas já está montada. Alguns sakês ainda estão para chegar, outros estão em processo de liberação governamental, aqueles carimbos todos pelos quais o importador precisa se aventurar antes de conseguir vender uma garrafa ou trocar um rótulo. No primeiro salão, fica o portfólio da casa, já com preço e fichas técnicas à vista. Na parte dos fundos, um sake bar, que servirá pequenas porções de comida (otsumami) em colaboração com o Egashira (Kan Suke), e uma Enomatic, que permite ao comprador conhecer os sakês antes de comprá-los ou fazer o que eu fiz, provar 7 tipos numa sentada.

Provamos Junmai Daiginjo, Ginjo, Honjozo, sakê de mesa, e até um Azuma Kirin, a título de comparação. Para minha ótima surpresa, a gama de sakês que o Fábio trouxe difere muito dos estilos a que eu estava acostumado, parece ampliar o léxico da bebida no país. Em geral, são sakês menos gordos e mais frescos, a maioria com boca bem elegante e notas menos superlativas. Entre tudo, destaco: 

Toko Junmai Ginjo Cho-Karakuchi: um estilo meio esquizofrênico, aromático no nariz e super seco na boca. Em japonês, “cho” é muito, e karakuchi é “seco”. A Laís percebe uma nota láctea. Faz sentido. É curioso justamente por essa discrepância entre o que o nariz anuncia (aromas vivos) e o que a boca imprime (austeridade), uma água da fonte mais mineral de todas. É como estar nas montanhas lambendo mármore. Para quem gosta de provar com carinho, ele rende uns 30 segundos de caretas e desconcerto. (R$259)

Miyako Homare Dry: sakêzão de mesa, vendido numa caixa de dois litros, que custa R$150 reais. Um dos ótimos sakês de guerra que já provei. É menos agressivo do que os rusticões, para beber frio, em quantidades generosas e, se me permite, servir sem culpa nem prejuízo de qualidade pro pessoal que fica na sua casa bebendo até as 3 da manhã. Sentiu que a galera já está entortando a cara e não merece mais coisa tão fina? Miyako Homare Dry neles. Sua gerente bancária agradece. (R$150)

Por fim, quero destacar a estrela daquela manhã etílica (começamos às 11am):

Gassan Hojun Karakuchi Junmai: aqui, o estilo bateu e bateu forte, joga no time dos mais elegantes do universo etílico. O nariz é gentil, tem fruta limpa – a Laís canta “algo como suco de uva verde” -, ele sussurra como um Vouvray classudo. É jovial e delicado. A boca é puríssima, limpa, como os Riesling austríacos, mais seco e cortante.. Quando ganha temperatura, engorda e fica mais cremoso. Não sei se eu amo isso. Eu gosto dele mais frio, quase intelectual, Timothée Chalamet lendo um livro no canto da sala. Ele te fita. Um gole não é suficiente, a língua pede mais informações, e elas vêm no segundo trago. Quanta sutileza, que delícia. (R$235)

O Gassan Hojun Karakuchi Junmai é produzido em Shimane, aos pés do Monte Gassan. É dele que desce a água, em processo lentíssimo, até o Rio Iinashi. Segundo uma das muitas lendas e reivindicações, Shimane é a província onde nasceu o sakê. E a mesma lenda conta que em determinado dia do ano (o Fábio não soube especificar qual), todos os deuses se reúnem por lá para fazer uma reunião, uma cúpula que vai decidir o futuro. Por isso, é o dia em que as outras províncias são abandonadas pelos deuses. Mas eu não sou idiota para acreditar em lenda. Cúpula é um caralho. Os deuses vão a Shimane é para encher a fuça dessa delícia.

*A Mega Sakê fica na Rua Joaquim Eugênio De Lima, 1416.

Instagram: @megasake

Website: https://www.megasake.com.br/

PANELA DE OPRESSÃO

Vejo no jornal O Globo que alguns pratos têm sido vetados dos cardápios do iFood, por conta de de seus nomes ou do nome de algum ingrediente. Exemplo? “Punheta de Bacalhau”, um clássico português. Outro? “Batatas ao murro”, também clássico. A matéria diz que “a empresa [iFood] explicou ao chef Alexandre Henriques que “murro” é uma palavra de agressão, considerada um item que vai contra os termos de uso do iFood.”. 

Não, não é brincadeira. O pessoal anda com umas prioridades… Estão transformando a gastronomia numa casa da Dona Bela, da Escolinha Do Professor Raimundo.

Então, para não ser injusto com ninguém, eu e Daniela Garuti fizemos uma lista de outros pratos e nomes que, pela mesma lógica, deveriam entrar no radar da plataforma e ser sumariamente banidos dos cardápios. Quer acabar com a punheta? Acabe logo com a porra toda. Segue:

Bar De Tapas – apologia à agressão, com crime previsto em lei (Maria da Penha)

Batidinha – passada de pano para agressão, com eufemismo.

Carne Louca – pelo gaslighting com o ingrediente.

Brigadeiro – pela militarização da gastronomia.

Bomba De Chocolate – por referência à indústria bélica (faça choux, não faça guerra).

Affogato – indelicadeza com as vítimas de naufrágio.

Pollo Alla Cacciatora – por incentivar a matança cruel e o genocídio de animais por esporte.

Menu Executivo – pela exaltação a quem explora o proletariado.

Ovos No Purgatório – você tem ideia do sofrimento e ansiedade que acometem quem está neste lugar?

Cosmopolitan – ode elitista, que oprime o homem rural

Negroni – nomenclatura racista

Old Fashioned – etarismo

Pintxos – glotofobia

Miúdos – gordfobia

Escondidinho – desrespeito com quem ainda não saiu do armário.

Focaccia – gatilho para quem tem TDAH.

Molho Branco – por reforçar privilégios.

Bem Casado – propaganda enganosa.

Bloody Mary – alusão machista ao período do ciclo feminino.

Americano – coquetel imperialista.

Pratos à moda do chef – discriminação fashion (todo mundo sabe que chef nunca tá na moda).

Aipim – por desconsiderar uma interjeição de dor (se alguém diz que dói, temos que parar).

Baião De Dois – por excluir casais poliamorosos.

Maminha – por erotizar o seio bovino.

Água Tônica – por marginalizar os sem tônus.

Mac N Cheese – segregação com quem usa PC.

Puro Malte – por ser contra a miscigenação.

Carbonara – por romantizar aqueles que sofreram com incêndios

Ford Cocktail – reverência ao fordismo, opressor da classe operária

Bacalao al Pilpil – bem…

Fica aí a reflexão. Imagina se, em vez disso, o aplicativo olhasse para restaurantes cujos chefs e donos de fato agredissem seus funcionários? Já pensou se vetasse casas cujos patrões falassem palavrões e fossem preconceituosos com a própria brigada? Melhor não, né? Aí não teria quórum, sobrariam uns 3 ou 4 pro delivery. Enquanto brigam por nomenclatura idiota, pelo murro nas batatas, tem gente socando a fuça de cozinheiro e xingando a mãe do pia. 

PINHEIROS & SAUDADE

Eu moro em Pinheiros há mais de uma década e testemunhei parte da transformação do bairro: o desaparecimento dos tios que consertavam TV de tubo e controle remoto, a demolição de bancas de jornais, o levante de novos prédios, todos bem feios e com nomes tipo “Spazzio 743”, “Studio Villa Pinheiros”, “Mourato View”. Eu vi a chegada do Coffee Lab, do Guarita, dos novos restaurantes veganos, das lojas de discos e galerias de arte, da Cacau Show, da Carlo’s Bakery. Foi tudo muito rápido. No princípio, era uma população mais velha, vizinhos que patrulhavam sua vida, aí chegou uma leva hipsterizada e blasé, que logo foi substituída por almofadinhas e novos milionários, ou herdeiros deles. Não precisa nem levantar a cabeça, dá para notar a mudança só pelas raças de cachorro que hoje circulam pelo bairro. 

Mas não sou exatamente dos que lamentam o que chamam de gourmetização, hipsterização, gentrificação, ou qualquer rancorzinho disfarçado de purismo. O pessoal que fica choramingando “o fim dos bairros em sua essência” nunca vai ao mercadinho da tia coreana e pede até serviço de chaveiro pelo Rappi. Boa parte desses estabelecimentos que fecharam, aliás, nem eram exatamente muito bons – eram só parte da memória já pálida de quem os reclama, mas não os frequentava há anos. Outra parte não sobrevive porque já não há mais tanta gente que goste de locar fitas VHS, DVDs, revelar fotos ou usar relógios (que dirá consertá-los). Eu aceito, porque dói muito menos. As cidades e os bairros, ao contrário de nós, não tendem a envelhecer, mas a modernizar. Resta-nos acompanhar e, em caso de incômodo, o ditado clássico é serventia da casa, porque piranha também ama, piranha também chora, mas piranha não sofre se você vai embora. (VITTAR, Pabllo. 2021)

Imagina se a Isabela Raposeiras tivesse que esperar o choro do pessoal secar para melhorar o cenário de café, não só do bairro, da cidade inteira? Imagina se o Chou ponderasse que, para trazer sua excelente comida ao bairro, teria que ocupar um imóvel que já fora de um senhorzinho que vendia uns doces ordinários? Não, obrigado.

O pessoal só sente saudade de brincar na rua, mas brincar que é bom mesmo, nada… Quer a manutenção dos lugares truezões? Frequente e gaste seu dinheiro neles, porque em algum momento eles irão à falência, ou se mudarão de bairro – assim como acontece com lugares menos truezões. Quem ama cuida. Terceirização da culpa que chama, né?

Full Lanchonete

Na Rua Fradique Coutinho 601, aqui do ladinho de casa, ficava o Bar Do Seu Nenê (o nome oficial mesmo era Full Lanchonete, vai entender). Sim, ficava. Seu Nenê foi mais um bar tradicional vitimado pela pandemia. Abria todos os dias às 04:00 da manhã e seguia direto até a noite, servia boas esfihas de boteco, era tocado por dois senhores fofos, o típico lugar fácil de sentir saudade. Mas, tirando as esfihas, a comida era meia-sola e não era raro estar muito salgada. Não se engane, o Bar Do Seu Nenê já vinha às moscas há um bom tempo, era frequentado apenas por alguns senhores do bairro, uns bêbados, pedreiros em busca de porções generosas, e o Mohamad Hindi, que ia lá de madrugada. Eu ia bem de vez em quando, mas não era assim, um boteco genial.

Na Rua Fradique Coutinho 527, na mesma quadra do Seu Nenê, ficava a Doce & Cia. Sim, ficava. Era mais conhecida como ‘japonês da fradique’, servia a melhor coxinha do bairro, tinha ótimo quindim e delicioso sanduíche de porco no missô com gengibre. Mas a Doce & Cia não faliu. Chegou à minha atenção que algum cliente publicitário (óbvio) e aventureiro convenceu o japonês de que era preciso um nome mais chamativo, que representasse o local, e agora o rolê se chama “Do Jorge”. O nome, apesar de perder a delícia irônica pela qual a gente amava o anterior, tudo bem. Mas se liga no novo logo, que mais parece uma capa de trabalho infantil: 

Por sorte, a coxinha, o croquete, o sanduíche, os doces & cia continuam lá, porque ao contrário do Seu Nenê, o lugar lota que é uma beleza. No frio, enche de USPster tomando sopa de mandioquinha; de dia, o PF é concorrido entre as secretárias de consultórios e alguns senhores da vizinhança; e os salgados vendem muito, o dia todo, por isso estão sempre quentinhos. A novidade é que o “Do Jorge” agora vai abrir outra unidade. Onde? Lá mesmo, no número 601 da mesma rua, onde antes ficava o Bar Do Seu Nenê.

É uma pena, jamais comemoraria o fechamento de um negócio familiar, mas o devir dos bairros é muito natural – acontece aqui e na Liberdade, a Barra Funda tá na mira, dizem que num passado distante até o Itaim Bibi já foi um lugar habitável. Também não comemoro a chegada de estabelecimentos intitulados La Sacaderia, Mule Mule Muleria, Jamp Burger, Hi Pokee. Mas para cada um desses, eu também vi chegarem um Boca De Ouro, um Santana Bar, um Chou, Cais, Hirá, Izakaya Matsu, Sede 261, Coffee Lab, Bráz Elettrica, Le Jazz, Marilia Zylbersztajn, a lista de boas vindas é enorme e um dia, espero, eles serão parte do cenário tradicional do bairro, classicões estabelecidos há décadas. Mas, convenhamos, chegaram no melhor estilo invasor e gourmetizador. Sim, obrigado.

A nossa memória afetiva das portinhas queridas diz mais sobre nós do que sobre as próprias portinhas. Muitas vezes, é por exclusivismo, como quem diz “pobre de você, que não provou aquela iguaria, agora é tarde”. E talvez seja bom assim, que a gente se lembre dos lugares como algo muito melhor do que de fato eram. Meu amigo John Freeman traduziu lindamente o sentimento para o inglês, em seu poema Saudade

“Here, again, grief fashioned in its cruelest translation: my imagined you is all I have left of you.” 
(“Aqui, novamente, a dor moldada em sua tradução mais cruel: meu você imaginado é tudo o que me resta de você.”)