DRY MARTINI (sem tempo, irmão)

O ser humano tende muito à concretude, né? O programa é um talk-show e o cidadão automaticamente espera que só tenha conversa nele – afinal, tem um “talk” no nome. Até os críticos (?) de TV soltam o pior dos clichês, “mais talk do que show”. É provável que estejam até hoje perdidos em Mykonos procurando um arroz à grega, junto com tanta gente que jura de pés juntos que a parmigiana vem de Parma… haja.

Deve ser por isso que um dos melhores drinks do mundo, Dry Martini, tem uma das piores execuções também do mundo. A cena tem melhorado e tal, mas até não muito tempo atrás, o que era de bartender tarimbado pingando gotículas de vermute no gim gelado, de animal usando borrifador de vermute, “só para perfumar”…

(Nota: no dia em que um coitado dum vermute cansado, definhando há meses na prateleira, conseguir perfumar uma das bebidas mais cheirosas de todas, o gim, eu juro que vou jantar no Quattrino e ainda pago R$94 num prato chamado “Linguado Saudável”, ou R$68 num “Penne Falabella”, que leva frango/catupiry/tomate seco). 

Voltando. A ideia do vermute a conta-gotas, é bem provável, veio de que, se o drink se chama DRY Martini, é obrigatório que seja o drink mais seco do universo – ou seja, com o mínimo de vermute praticável, apenas uma ideia dele, uma liturgia, um carimbo. Certa vez, acho que nos EUA, um cliente pediu “faça-me o Dry mais seco que puder” ao bartender, que prontamente bebeu uma dose de Noilly Prat e, em seguida, baforou na taça; outro bartender, sob o mesmo pedido, ligou para um amigo em outro continente e pediu que ele sussurrasse “dry vermouth” três vezes, enquanto segurava o celular ao lado da taça, para que ela somente ouvisse o som do vermute; Luís Buñuel dizia que bastava colocar a garrafa de vermute entre a taça e o sol, pois somente os raios que a varavam e beijavam o gim já eram suficientes; Winston Churchill mandava meter gim gelado na taça, apontá-la para o sul, onde fica a França, produtora de bons vermutes, e a vitória estava garantida. A diferença é que Churchill e Buñuel faziam isso, não por burrice, mas por alcoolismo, como se dissessem “sem tempo, irmão”. Daí, eu até banco. 

Mas, como eu dizia, a cena tem melhorado. No Boca De Ouro, o Arnaldo faz o meu favorito da cidade. Quando ainda existia Michelly Rossi em São Paulo, no Fel, eu não queria nem pescoçar a execução, ficava só contando os segundos, não de bailarina, mas de espera, até ganhar meu dry perfeitinho. Dry Martini, mais do que a proporção entre gim e vermute, depende de dois fatores cruciais: diluição precisa e produto bom. É importante que o gim seja bom e o vermute esteja fresco, recém aberto. O drink deve estar firme, inteirão, com pungência na língua. Perdoem-me o pedido difícil, mas eu sei que o bartender perdeu a mão quando sinto “gosto de água”, quando a boca nota que gim e vermute perderam a batalha, estão minguados. Neste caso, prefiro a receita do Churchill mesmo. 

Por isso, é um drink tão simples e tão difícil. É um coquetel de carinho e atenção, não dá para começar a fazer e, no meio, ir lá na despensa dos fundos buscar uma taça, deixar o drink boiando no gelo, aí mexe um pouco, pega um vidro de azeitona na geladeira, falta força para abrir, pede ajuda prum pano de prato, aí abre de uma vez e explode, zoa a bancada, o gato lambendo salmoura do chão, a mão fedendo, os amigos rindo da sua falta de perícia… Melhor fazer um gim tônica, Zé.

Assim, para que parem de me perguntar insuportavelmente qual a melhor receita de Dry Martini por DM, vou indicar aqui uma meio infalível, simplinha, que não custa um jantar no Quattrino e de tamanho perfeito para que o drink não esquente (aquela taça que já parou de suar há 15 minutos), nem te obrigue a fazer outro depois de dois goles. Existem muitas receitas, proporções e diluições, eu mesmo vario sempre, mas esta aqui é um caminho seguro:

DRY MARTINI

70ml gim (Tanqueray ou Beefeater)
20ml dry vermouth (Noilly Prat ou Dolin Dry)
1 twist de limão siciliano (sim, pode ser azeitona, Bela Gil)

Em primeiro lugar: deixe tudo separado na bancada: bebidas, gelo, copo, mixing glass/coqueteleira, o twist de limão já cortadinho. No mixing glass pré-gelado, adicione o gim e o vermute. Cubra todo o líquido com gelo. Mexa por 55 voltas completas de bailarina, sem parar, num ritmo consistente (se estiver muito calor, 50; muito frio, 60). Coe na taça também gelada, borrife a casca de limão e solte dentro do drink. E bebe logo, porque não precisa ser alcoólatra para estar sem tempo, irmão.