LE FIGADO EXPRESS 02

O QUE ESTAMOS BEBENDO?

Frappato COS (Wines4U, R$215)

A Sicília é o lugar a que eu gosto de recorrer quando quero beber algo aborgonhado sem esfolar o bolso. Em geral, os Nerello Mascalese do Etna é que oferecem esse serviço de suplente geográfico para quem não pode gastar um Fiat Elba numa garrafa, mas o Frappato da COS, um pouco mais ao sul da ilha, cumpre perfeitamente. Eu sou muito partidário (e parcial na avaliação) de tintos leves, e gosto porque este é um vinho para iniciados e iniciantes (eu já apresentei com sucesso para, vejam só, Carlinhos Maia). É descomplicado, porém delicioso e cheio de estilo, não faz feio com ninguém. Com o verão do sacripantas que se aproxima, eu já deixaria engavetado na adega, ali junto dos brancos.

O QUE ESTAMOS COMENDO?

Art & Richies (@artandrichies

Vou ser sucinto: nada, absolutamente nada, do que eu comi da Art & Richie’s foi menos do que excelente. Do Patê En Croute de galinha d’angola com foie gras e pistache à rillette de pato e a terrine de coelho com ameixas, as salsichas e o boudin blanc, a espetacular mostarda caseira. Charcutaria e conservas de altíssimo padrão.

Alerta: eu vou desejar duas doenças venéreas para cada Robert que vier me perguntar (favor ler fazendo aquela voz de idiota com a boca torcida) “Mas é melhor que A Table Charcutaria?”. Gente que vive de comparação não vive de prazer. Em tempo, os dois são muito, mas muito, bons.

O QUE ESTAMOS VOMITANDO?

Nathans’ Famous Hot Dog, essa importação mais desnecessária que o Benihana, poderia ter ficado em Coney Island, custando 2 dólares. É um lixo? Não. Vale a pena? Também não. Salsicha numa bisnaga safada, com ketchup e mostarda. Para não ser injusto, o corn dog e a mostarda que veio com ele estavam direitinhos (e apenas direitinhos). O resto, pode prestigiar o pessoal da Seara mesmo, que cê sai no lucro.

O QUE ESTAMOS LENDO?

Cocktail Culture Has a Nostalgia Problem

Artigo da Punch, enviado pelo Bernardo, que versa sobre o fetiche da indústria coqueteleira por um formato único, enquadrado num só curto período da história etílica, e que limita o progresso da própria indústria. Talvez, isso que a gente chama de “coquetelaria clássica” seja mais uma zona de conforto do que exatamente um indicativo de excelência.

https://punchdrink.com/articles/cocktail-culture-has-a-nostalgia-problem/?utm_campaign=later-linkinbio-punch_drink&utm_content=later-19351142&utm_medium=social&utm_source=linkin.bio

O QUE ESTAMOS OUVINDO?

quickly, quickly – The Long And Short Of It

Indicação do Léo, amigo de muito bom gosto musical, saiu esta semana e é o melhor disco do ano até agora, com folga. Que raro é o equilíbrio entre a pouca obviedade e a naturalidade – as pinceladas de estranheza e quebra de tempo são conscientes, sem parecer um “olha como eu faço loucurinhas”. É desconcertante e, ao mesmo tempo, fácil de ouvir. De nadinha.

LE FIGADO EXPRESS 01

O que estamos bebendo?

Jean-Claude Lapalu Beaujolais Nouveau (R$196 na @delacroixvinhos )

Beaujolais Nouveau já foi das maiores armadilhas disfarçadas de nome pop e slogan que conhecíamos até uns 10 anos atrás… Os importadores anunciavam “le beaujolais nouveau est arrivée!”, que eu recebia com o mesmo entusiasmo que “seu tio tá convidando todo mundo para ir ao puteiro!”. A cena mudou, ufa.

Recém-chegado na De La Croix Vinhos, é o vinho mais feliz e vivo e sedutor que provei recentemente. 

– “É Grená?”, perguntou a Dani.

– “É Gamay”, retruquei.

Eu achando que ela tentava uma pronúncia vergonhosa para Grenache, quando na verdade ela falava da cor, que, sim, é grená. Um grená turvo e brilhoso. A boca é fresca e saborosa, cheia de energia, ótima para ser o primeiro vinho do dia, o pontapé inicial para começar, ao mesmo tempo, com algo curioso, mas informal – que não vai tomar conta das conversas por mais 8 horas, com seus aromas e notas organolépticas palavrentos. It’s a joy!

O que estamos comendo?

Tarta De Queso Redemolino, da Thaís Gimenez (@thaisgimenez)

Se lhe pedirem dica de cheesecake, tão difícil de encontrar bem feito por aí, cola nesta Tarta De Queso, um cheesecake do País Basco muito vitorioso. Leve, com acidez, açúcar na medida e, como a Thaís, linda.

Eu dei o apelido de “melhor confeiteira indie da cidade” pra Thaís, não foi à toa. E, na minha época, os indies eram mais blasés e inacessíveis. Cumprindo minha premonição, ela se tornou um hit das tortas (de quejio, de maçã, de pêra) e hoje a produção esgota poucas horas depois de postada no Instagram, indiezona do coroio. Vai por mim: reserve com antecedência e seja feliz.

O que estamos vomitando?

Numa visita ao Moma Mia (eu juro), bar do Modern Mamma, tomei o Dry Martini mais errado da década; comi uma burrata maçaricada com presunto cru e rúcula; um carpaccio que parecia comprado no Dia%, uma tagliata com molho feito na usina. Tudo uma bosta, inclusive o serviço desatento. Nota 0 da Kogut.

O que estamos vendo?

Mare Of Easttown

Me venderam Mare Of Easttown (HBO) como, nossa, um tiro de 12 na cara, um desbunde. A Kate Winslet realmente está em plenitude pouco vista, baita personagem, baita atuação. Mas uma série policial em que a única coisa imprevisível é quem é o assassino jamais vai se sustentar por conta de uma atriz excelente. Episódio a episódio, a série só piora e parece ter menos vergonha dos clichês. O final é ruim e, pior, quando termina, fica apenas uma pergunta: “como foi que cheguei até aqui?”. Nota 0 da Kogut.

O que estamos lendo?

Na verdade, relendo.

1. Um texto de 2010, chamado “To Enhance Flavor, Just Add Water”, do Harold McGee para o New York Times. Aula atemporal sobre como a diluição é uma das melhores ferramentas para construção e percepção de aromas e sabores. 

2. A crítica de 2004 do Pitchfork ao disco “Funeral”, estreia do Arcade Fire. O Pitchfork era bom porque, concordando ou discordando, tinha texto lindo e firme. Segue abaixo a tradução da abertura, espantosamente escrita há 17 anos.

https://www.pitchfork.com/reviews/albums/452-funeral/

“A nossa geração é dominada pela frustração, inquietação, pavor e tragédia. O medo é totalmente difundido na sociedade americana, mas mesmo assim conseguimos construir nossas defesas de maneiras sutis – zombamos dos níveis de “ameaça” arbitrários e codificados por cor; recebemos nossas informações de comediantes e rimos dos políticos. Na virada do século 21, conhecemos bem o nosso isolamento. Nossa solidão autoimposta nos torna política e espiritualmente inertes, mas, em vez de tomar medidas para curar nossas feridas emocionais e existenciais, optamos por nos deleitar com elas. Consumimos o martírio afetado de nossos supostos ídolos e o cuspimos de volta em um desafio zombeteiro. Esquecemos que “emo” antes era derivado da emoção e que, em nossa compra e venda de dor pessoal, ou na aproximação cínica dela, não sentimos nada.”