PINHEIROS & SAUDADE

Eu moro em Pinheiros há mais de uma década e testemunhei parte da transformação do bairro: o desaparecimento dos tios que consertavam TV de tubo e controle remoto, a demolição de bancas de jornais, o levante de novos prédios, todos bem feios e com nomes tipo “Spazzio 743”, “Studio Villa Pinheiros”, “Mourato View”. Eu vi a chegada do Coffee Lab, do Guarita, dos novos restaurantes veganos, das lojas de discos e galerias de arte, da Cacau Show, da Carlo’s Bakery. Foi tudo muito rápido. No princípio, era uma população mais velha, vizinhos que patrulhavam sua vida, aí chegou uma leva hipsterizada e blasé, que logo foi substituída por almofadinhas e novos milionários, ou herdeiros deles. Não precisa nem levantar a cabeça, dá para notar a mudança só pelas raças de cachorro que hoje circulam pelo bairro. 

Mas não sou exatamente dos que lamentam o que chamam de gourmetização, hipsterização, gentrificação, ou qualquer rancorzinho disfarçado de purismo. O pessoal que fica choramingando “o fim dos bairros em sua essência” nunca vai ao mercadinho da tia coreana e pede até serviço de chaveiro pelo Rappi. Boa parte desses estabelecimentos que fecharam, aliás, nem eram exatamente muito bons – eram só parte da memória já pálida de quem os reclama, mas não os frequentava há anos. Outra parte não sobrevive porque já não há mais tanta gente que goste de locar fitas VHS, DVDs, revelar fotos ou usar relógios (que dirá consertá-los). Eu aceito, porque dói muito menos. As cidades e os bairros, ao contrário de nós, não tendem a envelhecer, mas a modernizar. Resta-nos acompanhar e, em caso de incômodo, o ditado clássico é serventia da casa, porque piranha também ama, piranha também chora, mas piranha não sofre se você vai embora. (VITTAR, Pabllo. 2021)

Imagina se a Isabela Raposeiras tivesse que esperar o choro do pessoal secar para melhorar o cenário de café, não só do bairro, da cidade inteira? Imagina se o Chou ponderasse que, para trazer sua excelente comida ao bairro, teria que ocupar um imóvel que já fora de um senhorzinho que vendia uns doces ordinários? Não, obrigado.

O pessoal só sente saudade de brincar na rua, mas brincar que é bom mesmo, nada… Quer a manutenção dos lugares truezões? Frequente e gaste seu dinheiro neles, porque em algum momento eles irão à falência, ou se mudarão de bairro – assim como acontece com lugares menos truezões. Quem ama cuida. Terceirização da culpa que chama, né?

Full Lanchonete

Na Rua Fradique Coutinho 601, aqui do ladinho de casa, ficava o Bar Do Seu Nenê (o nome oficial mesmo era Full Lanchonete, vai entender). Sim, ficava. Seu Nenê foi mais um bar tradicional vitimado pela pandemia. Abria todos os dias às 04:00 da manhã e seguia direto até a noite, servia boas esfihas de boteco, era tocado por dois senhores fofos, o típico lugar fácil de sentir saudade. Mas, tirando as esfihas, a comida era meia-sola e não era raro estar muito salgada. Não se engane, o Bar Do Seu Nenê já vinha às moscas há um bom tempo, era frequentado apenas por alguns senhores do bairro, uns bêbados, pedreiros em busca de porções generosas, e o Mohamad Hindi, que ia lá de madrugada. Eu ia bem de vez em quando, mas não era assim, um boteco genial.

Na Rua Fradique Coutinho 527, na mesma quadra do Seu Nenê, ficava a Doce & Cia. Sim, ficava. Era mais conhecida como ‘japonês da fradique’, servia a melhor coxinha do bairro, tinha ótimo quindim e delicioso sanduíche de porco no missô com gengibre. Mas a Doce & Cia não faliu. Chegou à minha atenção que algum cliente publicitário (óbvio) e aventureiro convenceu o japonês de que era preciso um nome mais chamativo, que representasse o local, e agora o rolê se chama “Do Jorge”. O nome, apesar de perder a delícia irônica pela qual a gente amava o anterior, tudo bem. Mas se liga no novo logo, que mais parece uma capa de trabalho infantil: 

Por sorte, a coxinha, o croquete, o sanduíche, os doces & cia continuam lá, porque ao contrário do Seu Nenê, o lugar lota que é uma beleza. No frio, enche de USPster tomando sopa de mandioquinha; de dia, o PF é concorrido entre as secretárias de consultórios e alguns senhores da vizinhança; e os salgados vendem muito, o dia todo, por isso estão sempre quentinhos. A novidade é que o “Do Jorge” agora vai abrir outra unidade. Onde? Lá mesmo, no número 601 da mesma rua, onde antes ficava o Bar Do Seu Nenê.

É uma pena, jamais comemoraria o fechamento de um negócio familiar, mas o devir dos bairros é muito natural – acontece aqui e na Liberdade, a Barra Funda tá na mira, dizem que num passado distante até o Itaim Bibi já foi um lugar habitável. Também não comemoro a chegada de estabelecimentos intitulados La Sacaderia, Mule Mule Muleria, Jamp Burger, Hi Pokee. Mas para cada um desses, eu também vi chegarem um Boca De Ouro, um Santana Bar, um Chou, Cais, Hirá, Izakaya Matsu, Sede 261, Coffee Lab, Bráz Elettrica, Le Jazz, Marilia Zylbersztajn, a lista de boas vindas é enorme e um dia, espero, eles serão parte do cenário tradicional do bairro, classicões estabelecidos há décadas. Mas, convenhamos, chegaram no melhor estilo invasor e gourmetizador. Sim, obrigado.

A nossa memória afetiva das portinhas queridas diz mais sobre nós do que sobre as próprias portinhas. Muitas vezes, é por exclusivismo, como quem diz “pobre de você, que não provou aquela iguaria, agora é tarde”. E talvez seja bom assim, que a gente se lembre dos lugares como algo muito melhor do que de fato eram. Meu amigo John Freeman traduziu lindamente o sentimento para o inglês, em seu poema Saudade

“Here, again, grief fashioned in its cruelest translation: my imagined you is all I have left of you.” 
(“Aqui, novamente, a dor moldada em sua tradução mais cruel: meu você imaginado é tudo o que me resta de você.”)

14 thoughts on “PINHEIROS & SAUDADE

  1. Esse tipo de saudosismo me incomoda, pela hipocrisia que é. Como você disse, se gosta do lugar gaste seu dinheiro lá. Mesmo assim sinto falta de “portinhas” que nunca entrei.

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  2. Realmente, o Seu Nenê era assim.. mas a grande frequencia eram os taxistas da noite que batiam ponto. A presença do Mohindi fez muita diferença pro Seu Nenê da madrugada, que nada tinha a ver com o Seu Nenê do restante do dia, tocado por outra pessoa e com outro tipo de serviço. Frequentávamos frequentemente, as 2h, quando ele já deixava a porta baixa,. Era só bater e berrar “Seu Neneeeeê”.. limão era sempre cravo, esfiha sempre bem úmida e ele amava receber cozinheiros e taxistas da madrugada.. só ficava puto se pedissem comida de graça. Mas insistia pra gente levar esfiha e bolinhos de carne de presente pra comer em casa.

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  3. tem uma coisa que deixa esse REBRANDING do Doce & Cia ainda melhor: antes de abraçarem esse DoJorge, eles se cadastraram nos apps de entrega como JILÓ

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  4. Danilo sempre impecável na escrita, do meu lado gratidão por ter tido a oportunidade de beber no OTYY Drinks e na saideira ter comido uns salgados do Seu Nenê.
    Se o leitor teve a paciência de ler até aqui compre / consuma dos izakaya da cidade!

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  5. Que delícia de texto!

    Essas reminiscências/ saudosismos tem mesmo esse tempero do “saudades do que a gente já viveu” – mas se pudesse viver, não teria, talvez, o mesmo sabor.

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  6. que louco. lendo isso justo quando tô pensando num projeto para meu bairro, um dos mais antigos de bh, para um edital. grato demais pelos insights absorvidos por aqui.

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  7. Fala, Danilo. Não te conheço, mas conhecia o bar do Seu Nenê, que pra mim era o Bar do Toninho. Passava lá normalmente a noite, depois do expediente, mais vazio que durante o dia. Uma ou outra mesa com gente, as vezes ninguém. Cerveja gelada e nenhuma frescura. A grande atração não era a comida ou a bebida, mas o atendimento. Fizemos amizade com o Toninho, dessas tão raras pelo bairro. Muitas histórias, risadas, choros e alegrias, vai deixar saudade. Ele passou o ponto para descansar depois de anos de trabalho, a pandemia só acelerou o processo. Pelo menos vamos poder se encontrar do lado de cá do balcão, bater um papo e tomar uma cerveja juntos, já que antes ele não podia. Que o bairro tenha forças e se recupere com comércios reais, negócios com alma, pessoas de verdade e amizades duradouras. É disso que o bairro é feito.

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  8. Fala, Renato. Obrigado pelo comentário, e que boa notícia saber que o Toninho passou o ponto por vontade própria. O atendimento dele sempre foi de primeira, é verdade. Abraço.

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