DRUK E OS BEBEZÕES ETÍLICOS

Em fevereiro, eu vi “Druk – Mais Uma Rodada”, e é uma delícia, um retrato de quatro adultos em crise tentando solucionar a paumolescência do cotidiano meia-boca com algumas doses. Você já deve ter visto, alguma das filhas do Silvio Santos também. Mas quem deveria ver, de fato, parece não ter visto. Então aqui vai minha dica: recomendo fortemente que o filme seja assistido pelas marcas de bebidas alcoólicas e seus publicitários. 

Já faz mais ou menos uns 5 ou 6 anos que eu vejo e ouço da indústria de bebidas um esforço brutal para promover o que chamam de “consumo consciente”, rogando-se fofa e inofensiva. Os jovens já não são tão afeitos ao porre, os coquetéis têm tendido a graduações alcoólicas mais baixas, já inventaram até uma maldição de bar de drinks sem álcool. É um movimento global. Porque, aos poucos, o discurso do bem-estar escancarou que álcool é veneno – como aconteceu com o cigarro. A vantagem é que a indústria tabagista jamais falou “fume com moderação”, ela fez análise e sabe que é cancerígena, mas também sabe o prazer que causa. Está lá estampado em cada maço de cigarros: “oi, meu nome é cigarro, eu transo bem mas te destruo, sou o famoso boy lixo”.

A caretice atual da indústria etílica me soa como uma farsa alinhada aos tempos modernos – ela só o faz porque não quer ficar para trás, passa noites insones atormentada pela ideia de ser quem é. Faz lembrar Don Draper, no primeiro episódio de Mad Men, defendendo que Lucky Strike é tostado, não venenoso. Ali, pelo menos, havia uma malícia, e não um pedido de desculpas por existir. E é logo em seguida que o próprio Don Draper diz que a publicidade é baseada tão somente em felicidade: “é o cheiro de um carro novo, um outdoor na estrada que grita com segurança que, o que quer que você faça, está tudo bem.” Na atual divulgação de destilados, não parece estar tudo bem – parece haver mais medo do que felicidade.

Anos atrás, montei o bar para um evento “open-bar” que dava direito a apenas 4 coquetéis (oi bem?), porque a marca não queria estar atrelada ao desregrado, ao alcoolismo, à cirrose de quem a consome. Parecia tratar o consumidor como um bebezão – aquele “mas só um, hein?”, que sua mãe dizia na infância. 

E eu não estou aqui para defender o consumo desenfreado de álcool, mas para dizer que a relação com a pinga é individual. Pelo menos, é o que eu vi em Druk. Para alguns, dá bom; para outros, é o fim; para uns, é só uma tacinha; eu não sou homem de uma dose só (e nem de três). A cena final, um musical redentor, não será para todos (imagino), mas ela acontece aqui e ali. Aposto nela. Se errar, a culpa é minha, não do sistema.

Esses pequenos venenos do cotidiano são parte do enfrentamento da existência e a moralização deles há de nos levar a outros deles. Como diz um amigo, “o vício é uma paixão que deu errado”. E quem há de me culpar pela minha própria paixão? Espero que as marcas de camisinha não sigam o mesmo caminho. No fim das contas, cito a Fran Lebowitz, no espetacular Faz De Conta Que NY É Uma Cidade (Netflix): “seus maus hábitos podem te matar, mas seus bons hábitos não vão te salvar”. 

11 thoughts on “DRUK E OS BEBEZÕES ETÍLICOS

  1. Os bons hábitos podem salvar, sim, mas cabe à cada pessoa determinar suas dores. “Beber com moderação” pode envolver tanto uma paranoia injusficada quanto o autocontrole consciente daquilo que cabe a si. O bem-estar sensorial nos rituais de bebedeira mudará muito a depender disso. Certamente não aprenderemos isso através de slogans sanitários embutidos em propagandas tão toscas, limitadas pelo constrangimento da lei. Por outro lado, o consumo abusivo não surge apenas dessas propagandas, mas sim, como um resultado de todas as outras propagandas – há quem diga que o bebedor incontrolável não é nada mais do que o consumidor ideal que todo ramo desejaria chamar de seu: aquele que consome impulsiva e compulsivamente, entregue ao estímulo, sim, como um bebê. Esperar algum amadurecimento no meio dessa dicotomia entre irresponsabilidade do mercado e a tutela do estado é uma tarefa inglória – no fundo, nenhum dos lados está realmente interessado na qualidade da experiência do consumidor. Inclusive porque nós, consumidores formados nessa cultura reducionista, também raramente demandamos qualidade, ou confundimos isso com quantidade, preço acessível, valorizando aspectos que fomos adestrados a valorizar (tudo está bem, desde que a cerveja seja gelada de forma estúpida). Num tal estado de coisas, entre um e outro extremo, tendo a ficar mais simpático com a tutela do estado, vendo-a como algo mais evoluído do que o mero consumo impulsivo orientado ao lucro. Vejo que ao serem discutidas normas e regulamentações, ao menos há algum espaço para a racionalidade, para a projeção de distinções, algo que não me parece estar presente quando falamos da mão invisível, aleatória e acéfala do mercado, na qual reina a lógica do curto prazo.

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  2. bem, taí a PL504/2020 para mostrar o quanto a tutela do Estado pode ser perigosa.
    mas a ideia do texto era justamente falar da relação individual com a bebida e da vergonha que a indústria etílica parece ter de quem, de fato é. obrigado pelo comentário, de qualquer forma, a discussão é infinita.

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